ALTO LÁ E PÁRA O BAILE!
- Alto lá e pára o baile!
A ordem, por inopinada e vinda de uma autoridade cujas prática quotidiana no exercício das suas funções lhe granjeara fama de excessivo zelo e tomada de decisões muito acima das competências que a lei lhe atribuía, causou impacto imediato nos intérpretes que estavam no palco, os quais, interromperam os diálogos ante o desespero do ponto que, sem se ter apercebido do que se passava atrás dele, encolhido que se encontrava na reduzida caixa aberta ao nível do soalho repetia e gesticulava, aflito, as "deixas" na tentativa de retomar o curso normal do espectáculo.
- Alto lá e pára o baile!
A reacção que se seguiu foi tudo o que o cabo graduado em comandante não contava. Do palco, alguém afrontava o intruso , ripostando:
- Baile? Que baile? O senhor chama a isto baile?
Era o pajem da peça, uma figura ainda jovem mas já de razoável estatura com vestimenta “à Robin dos Bosques”, de arco e flechas de madeira artesanais enfiadas na aljava que transportava presa às costas, quem tomava a iniciativa em afrontar e contestar a abrupta e despropositada interrupção do concorrido acontecimento.
- Então, um baile?, prosseguiu. Com que autoridade intervém o senhor aqui, neste espaço?. Virando-se, logo a seguir, para o presidente da Instituição onde decorria o espectáculo, ali presente na primeira fila, ele também ainda mal refeito da inusitada e surpreendente atitude da autoridade.
- Senhor presidente, interpelou-o “Robin dos Bosques”, quem manda aqui dentro? É este senhor?
Na salãocomeçaram a ouvir-se ruídos ameaçadores e uma voz ergueu-se acima de confusão que começava a instalar-se, num grito de velada ameaça:
-Apaguem a luz!
Logo, mais vozes se juntaram à anterior e era já um ribombar de trovoada depois do relâmpago que anunciava a borrasca latente e incontrolável.
Apercebendo-se da insistente degradação do ambiente o invasor recuou na intenção e na estratégia que o movera, e, a custo, com a canhota levantada à altura dos ombros segura nos dois braços, conseguiu abrir caminho até à saída agrupando a força de vários praças que para ali destacara. Havia-se formado, no exterior, uma pequena multidão que não tinha conseguido obter bilhetes de ingresso, mesmo recorrendo ao mercado negro que se verificava muitas vezes sempre que o grupo cénico amador ali estreava um espectáculo, e, o estado geral de ânimo não era o mais propício ao apaziguamento em caso de qualquer incidente; considerando a insuficiência de efectivos no caso de deterioração da ordem pública, foram os militares posicionar-se estrategicamente a alguns metros de distância sem, contudo, dar mostras de querer abandonar o local.
Para melhor compreensão dos factos é necessário referir que o objecto da intervenção da força policial era o de fiscalizar se na sala estavam crianças mesmo que acompanhadas dos seus pais ou familiares. Executor implacável da letra da lei até ao ponto de aplicar uma multa a uma familiar muito próxima a quem surpreendera em flagrante a sacudir o tapete da janela do posto da guarda para a rua, era imperioso mostrar a sua inabalável exemplaridade profissional fossem quais fossem as situações e o momento de o fazer. Abril era ainda sonho guardado e abafado pelo medo nesse tempo e os tiranetes com poder mesmo que de relativa dimensão afadigavam-se em mostrar serviço, exorbitando com empenho canino nas acções que desenvolviam visando incutir nos mais humildes uma obediência cega e incondicional . Escolheu mal o momento, como veio a verificar-se.
O espectáculohavia de chegar ao fim já bastante tempo depois da meia-noite e, como habitualmente, os intérpretes amadores do grupo de teatro que o levara à cena comentavam na forma habitual as peripécias que o envolveram, comendo bolachas Maria e bebendo um dedal de vinho do Porto, como era tradição. Chegou, entretanto, ao conhecimento do “Robin dos Bosques” que a força da ordem continuava perto da entrada principal com o intuito de o conduzir ao posto próximo, dentro dos melhores procedimentos vigentes à altura dos acontecimentos, onde, como constava e era garantido acontecer, quem lá entrasse, homem ou mulher, novo ou idoso, era interrogado durante horas, ameaçado, agredido quando calhava, sujeito a julgamento e veredicto condenatório que forçava o(a) infeliz a passar umas horas, com menos sorte até uma noite, atrás das grades da porta da enxovia onde nem janela existia para poder ver o “sol aos quadradinhos”.
Ainda desta vez o esbirro viu gorada a sua ânsia persecutória de vingança contra o afrontador da sua intocável autoridade. Com o auxílio dos colegas que foram saindo naturalmente pela porta principal, o improvisado Robin Wood, interpretando à letra as aventuras que o salvaram sempre das mãos do vilão, já sem o disfarce da vestimenta que usara no cena, saiu à socapa pela porta dos fundos e escapuliu-se dali nas barbas da patrulha para ir gozar na sua cama o descanso retemperador das emoções vividas nessa noite.
No tempo em que ainda por cá andou até atingir o limite de idade imposto pelo regulamento, nunca mais voltaram a estar frente a frente os dois principais protagonistas do episódio aqui descrito.
É de acreditar que nem um nem outro alguma vez se tivesse lamentado por isso não se ter verificado.
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